"Camilo terá de reconstruir uma polícia destruída por Cid Gomes", avalia Lúcio Alcântara



Quase dez anos desde que deixou o Palácio do Cambeba (residência oficial antes da reforma do Palácio da Abolição), o ex-governador Lúcio Alcântara não se conforma com a condução da segurança pública pelo seu sucessor, o agora ex-governador Cid Gomes (PDT). Para o presidente estadual do PR, Cid “destruiu a Polícia com a história de fazer outra”. Ele entende que atual governador, Camilo Santana (PT), está reconstruindo a estrutura de segurança no Ceará.

Lúcio Alcântara concedeu entrevista ao Tribuna do Ceará na segunda-feira (12), em sua residência, em Fortaleza. Além das críticas a Cid Gomes, o ex-governador falou sobre o cenário político nacional e municipal e as atividades que desempenha desde que deixou o Governo.

Apoiador do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Lúcio criticou que a crise econômica e política no Brasil é culpa tanto do Governo como da oposição que, para ele, “podia ter colaborado mais”. “A melhor solução seria eleição geral para presidente, mas isso está politicamente difícil”, pontua.

O PR se articula para lançar a candidatura do deputado estadual Capitão Wagner para a Prefeitura de Fortaleza, com apoio do PSDB do senador Tasso Jereissati, afirma Lúcio. Ele critica que adversários políticos, como os irmãos Cid e Ciro Gomes (ambos do PDT), tentem minimizar a influência do deputado, dizendo que ele só entende de segurança pública. “Não posso me calar quando vejo demagogia”, afirma.

A desavença política com os Ferreira Gomes é antiga. Cid derrotou Lúcio em 2006 em sua campanha pela reeleição. O sucessor, contudo, é acusado pelo presidente do PR de ter mentido em suas promessas de campanha. “A preocupação do meu sucessor era destruir a imagem do meu governo e desfazer tudo o que eu tinha feito”, afirma Lúcio. Cid preferiu não comentar a críticas.

Confira a entrevista completa concedida ao repórter Matheus Ribeiro:

Tribuna do Ceará – Como o senhor enxerga o atual cenário político nacional?

Lúcio Alcântara – É muito lamentável que a gente chegue onde chegamos. Há uma culpa grande do governo do PT, mas houve uma colaboração da oposição. (A oposição) mesmo combatendo e procurando saídas para o afastamento da presidente, podia ter colaborado mais, aprovando algumas medidas que qualquer um que seja presidente vai ter que tomar para o Brasil sair do fosso. A melhor solução seria eleição geral para presidente, mas isso está politicamente difícil. Embora o impeachment seja uma medida excepcional, embora a nossa história seja de muitos presidentes que, por uma razão ou outra, não concluíram o mandato, vão ter que chegar a essa medida extrema que é o impeachment. A essa altura eu não vejo outra alternativa, sabendo que vamos ter muitas dificuldades com essa sucessão.

Tribuna – O PR tem certa indefinição em ser a favor ou contra o impeachment. Alguns são contra, outros são isentos. Como tem sido o diálogo dentro do partido?

Lúcio – Para o PR fechar a questão, é uma deliberação nacional. Não é nossa. Temos o deputado federal Cabo Sabino, que já se pronunciou (a favor do impeachment), os dois deputados estaduais, Capitão Wagner e Fernanda Pessoa e o Roberto Pessoa, que é presidente de honra do partido, e eu, que acabei de manifestar (apoio ao processo). A deputada (federal) Gorete Pereira mantem-se ainda indecisa. Quer escutar ainda a opinião pública, pois está ligada a muitos prefeitos, a municípios que dependem muito de recursos.

Tribuna – Como está o diálogo do PR com o PSDB para o apoio ao Capitão Wagner à Prefeitura de Fortaleza

Lúcio – Muito bom. Está sendo produzido em menor parte por mim, em maior parte pelo Capitão Wagner e o nosso presidente de honra, Roberto Pessoa. Praticamente já se fechou uma aliança com o PSDB. Temos muito tempo para a realização das convenções, mas esse acordo já está praticamente acertado entre os dois partidos.

Tribuna – Como o próprio Capitão Wagner trata as questões das críticas que ele recebe?

Lúcio – Muita gente tenta diminui-lo, dizendo que ele só entende de segurança. Mas ele, na verdade, está colhendo material, se preparando para formular um plano de governo. Ele é uma pessoa serena, fala sempre com compostura. Não é aquele tipo estérico que a gente vê em alguns que são ligados à área da segurança. Quando o governador o chamou, foi lá dar suas colaborações. Não posso me calar quando vejo demagogia, certas posturas para atrair pessoas que não percebem as coisas. O próprio irmão do ex-governador (Ciro Gomes, irmão de Cid Gomes) uma vez disse: “nós vamos derrotar o Capitão”, como se ele só entendesse de segurança. Ele mesmo (Ciro), no governo do irmão, disse que havia milícia (dentro da Polícia do Ceará) e nunca mostrou. Por que o deputado do governo não o deixa (Ciro) ir lá (na Assembleia Legislativa)? Há um pedido de convocação para ele explicar essas questões (da milícia). É muito grave, (há) muita acusação vaga.

Tribuna – O senhor pretende inserir alguém de confiança na prefeitura da cidade de São Gonçalo do Amarante (cidade natal de Lúcio)?

Lúcio – Não temos ainda uma decisão. Há conversas com outros partidos de oposição, mas o quadro ainda não está definido. Vamos aprofundar os entendimentos e acelerar essa decisão. A ideia geral – e nisso nós temos mantido várias conversas com o Luiz Pontes, presidente do PSDB, o deputado estadual Danniel Oliveira (PMDB), que representa o senador Eunício Oliveira (PMDB), e o Solidariedade –, para ver, onde for possível, uma união em torno de um candidato.

Tribuna – Como o senhor avalia a segurança pública após o seu governo?

Lúcio – Uma razão do descrédito da classe política, porque a própria Dilma (Rousseff) se elegeu prometendo o que ela não pôde fazer. Eu, por exemplo, me elegi em 2002 e, por reconhecer que esse problema é grave e sério, nunca disse que acabaria com a violência e resolveria o problema. Mas disse que lutaria, que faria tudo o que estivesse ao meu alcance. Recentemente os jornais fizeram algumas matérias sobre isso, inclusive sobre a evolução da violência aqui, no Ceará, e mostraram que o meu período foi o mais tranquilo. A violência aumentou um pouco, mas foi o período em que menos aumentou, apesar das dificuldades políticas e de recursos. O meu sucessor (Cid Gomes) ganhou a eleição dizendo que acabaria com a violência, o que é um tremendo absurdo. Estava que nem a Dilma, prometendo o que não podia fazer. Então criou Ronda (do Quarteirão), disse que você chamaria a Polícia e ela estaria na sua porta em cinco minutos, que você saberia o nome do policial, e, na verdade, houve um aumento exponencial da violência. Nos oito anos dele, só em Fortaleza, morria mais gente do que em todo o meu governo no Ceará todo. Com o agravante: primeiro que ele mentiu, prometeu acabar atrás de voto e a segurança era, como hoje, uma coisa que incomoda. Então, a primeira coisa: ele mentiu para o povo. A segunda: foi o gasto. Ele sempre dizia: “mas eu fui o que mais gastou”. Pior, porque foi o que mais gastou e teve os piores resultados. Estão aí os carros sucateados, uma despesa enorme, com uma manutenção enorme. A manutenção, em alguns casos, era quase o preço de uma nova. Pernambuco baixou a criminalidade com carros pequenos e outras medidas mais práticas. Havia uma arrogância e um desperdício e o resultado foi péssimo. É preciso ser humilde diante disso. É necessário sempre buscar as melhores solução, mas nunca enganar o povo, nunca mentir.

Tribuna – Quais as medidas que o senhor enxerga para mudar essa situação?

Lúcio – A primeira coisa o governador Camilo Santana está fazendo que é a de recompor as forças de segurança. O meu sucessor destruiu a Polícia com a história de fazer outra. Ele só abria a boca para falar mal da Polícia, da qual ele mesmo era o comandante. Não quero dizer que a Polícia não tem lado ruim. Ela tem e são muitos, mas ele só viu o lado negativo. Camilo mostrou-se capaz de dialogar. A preocupação do meu sucessor era destruir a imagem do meu governo e desfazer tudo o que eu tinha feito. Fizemos uma coisa que funcionou no Rio de Janeiro: o disque denúncia. Trouxemos e instalamos aqui. Havia um sistema montado, com denúncias anônimas. A primeira coisa que ele (Cid Gomes) fez foi acabar com isso. Ele foi petulante, arrogante e acabou destruindo isso. O Laécio Noronha (advogado e autor do livro Políticas Públicas de Segurança), na última campanha do Eunício Oliveira (candidato ao Governo do Estado em 2014), publicou um livro com todas as sugestões, diagnósticos e propostas sobre segurança pública que estão sendo feitas. Camilo está evitando desperdícios, comprando carros menores… Perdemos oito anos com esse desmando na área da segurança.

Tribuna – O que lhe motiva a continuar participando dessas questões para melhorar a segurança pública no Ceará?

Lúcio – Não pretendo disputar mais nenhum cargo político. Mas, por tudo o que eu recebi do povo cearense, pelos cargos e oportunidades que tive, tenho uma responsabilidade que está acima de procurar ter desempenhado bem as funções que ocupei. Encaro isso como minha obrigação. Pela experiência e gratidão que tenho ao povo do Ceará, tenho o dever de fornecer um pouco do meu conhecimento à sociedade. Acabo sendo um ombudsman da sociedade. Tenho certa responsabilidade partidária, por está presidindo um partido político, mas hoje me sinto muito mais livre para falar e me manifestar, pois agora estou querendo colaborar. Hoje, estou presidindo o Instituto do Câncer, que meu pai foi um dos fundadores, então eu estou colaborando lá.

O Tribuna do Ceará entrou em contato com o ex-governador Cid Gomes, mas ele optou por não responder às críticas de Lúcio Alcântara.

Fonte: Tribuna do Ceará
"Camilo terá de reconstruir uma polícia destruída por Cid Gomes", avalia Lúcio Alcântara "Camilo terá de reconstruir uma polícia destruída por Cid Gomes", avalia Lúcio Alcântara Reviewed by Fabiano Silva on 01:03:00 Rating: 5

Nenhum comentário